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pai João e mãe Sofia

pai João e mãe Sofia

18 meses de ti (post muuuito longo)

Há 18 meses...
... as contracções com intervalos de 7 minutos já tinham começado há algumas horas.
  
Dormi mal, cheia de dores e de ansiedade, depois de uma ida à maternidade na noite anterior onde me disseram que estava tudo ainda muito no início, que seria mais confortável se esperasse pelo desenrolar da situação em casa.
Assim fiz... o mais acertado, sem dúvida.
  
Há 18 meses levantei-me cedo, tomei um banho quente e fui até à maternidade onde por acaso já tinha consulta marcada. Os meus pais vieram buscar-nos a casa. O pai João foi trabalhar e os meus pais foram comigo.
 
Consulta, ctg... tudo a postos, tudo pronto, mas ainda com muito trabalho pela frente. A ordem foi para não me afastar, mas para ir andar, passear... Ideia apetecível num dia de Junho, não fosse estar a chover a cântaros e uma trovoada de meter medo.   
   
Debaixo de um guarda-chuva, eu e o meu pai fizemos a Rua da Estefânia várias vezes, mas a memória que tenho dessas horas é vaga.
Lembro-me de ter os pés frios, molhados.
Lembro-me do som dos pingos a bater no chapéu que nos protegia, do cheiro a chuva fora de época. 
Lembro-me de tentar não fazer uma expressão muito dolorosa a cada contracção já que estava no meio da rua.
Lembro-me de estar eternamente agradecida ao meu pai que me ia guiando o passeio e me ia amparando as dores.
        
Por volta das 14h voltei à maternidade.
Inscrevi-me e esperei que me chamassem. As dores cada vez mais fortes, os três ou quatro minutos de descanso entre cada contracção, as visitas que iam chegando à sala de espera entusiasmadas com os seus bebés que já tinham nascido, as minhas idas à casa-de-banho na tentativa de me mexer, de ficar mais confortável, de me alhear das conversas e dos olhares das pessoas à minha volta.
     
Chamaram-me finalmente e quando entrei vivi os momentos mais difíceis de todo o dia
Ligaram-me a um ctg e fiquei sozinha. Atada a uma cadeira, semi deitada e muito desconfortável, as dores tornaram-se insuportáveis.
Além disso, ligaram-me a um ctg que, por falta de tinta no indicador que marcava as contracções, só registava o batimento cardíaco do bebé. Fiquei em pânico perante a possibilidade de ter de ficar ainda mais tempo assim, quando o médico se apercebesse da falta do desenho das contracções.
   
Estiquei-me até à minha mala e liguei ao meu pai, que estava na sala de espera. Expliquei-lhe onde estava, pedi-lhe que viesse ter comigo e que pelo caminho avissasse um médico da falha do ctg.
Uns segundos depois, assim de rompante e todos de seguida, entraram os meus amigos, a S. e o A. (o A., por trabalhar no hospital tem livre acesso a todo o lado), o meu pai e o pai João, acabado de chegar do trabalho.
   
E nesta altura a dor estava a ganhar-me. 
Senti-me a perder o controlo, as lágrimas a escorrem-me dos olhos e a vontade de gemer bem alto as guinadas fortes que começavam nas costas, na zona dos rins, e se alastravam até à barriga.  
 
Tanta gente à minha volta e, também em questão de segundos (ou assim me pareceu), apareceu a minha médica.
Não me recordo bem de como tudo aconteceu. Sei que o pai João já não saiu mais de perto de mim, sei que a única coisa que me fez manter o controlo foi sair dali na expectativa de uma epidural. Dei por mim já de bata vestida e a caminho, pelo meu próprio pé, do elevador que me levaria à sala de partos.
    
Aí, cumpriram-se os rituais da epidural e tudo ficou mais fácil. À excepção do frio que me fez bater o queixo (efeito da anestesia) e obrigou uma enfermeira a abafar-me em mantas.
Foi como se um pesadelo tivesse terminado. As dores já não incomodavam e estava num quarto confortável, descansada e sozinha com o pai João.
  
Embalados pelo barulho dos batimentos cardíacos do filhote, conversámos, rimos, namorámos, descansámos... preparámo-nos para o momento que estava a chegar....
Os médicos e os enfermeiros, sempre calmos e tranquilizadores, só entraram no quarto nas raras vezes em que os chamámos.
     
Guardamos até hoje o papel do ctg da fase final do trabalho de parto (pedimos já depois do filhote nascer e foi-nos dado quase secretamente, dentro do livrinho verde da gravidez) e o registo começa às 16.30h.  
     
Até à hora do nosso bebé nascer, houve pouco para registar.
A dilatação foi-se fazendo, pedi um reforço da epidural, a bolsa rompeu entretanto e, já depois das 20h, chamámos um médico. Estava a sentir uma enorme vontade de fazer força.
    
O médico verificou que a dilatação estava completa e voltou a sair. Entraram então duas enfermeiras. Uma veio para perto de mim, desligou o ctg, preparou a cama; a outra manteve-se no fundo do quarto, ocupada nos preparativos para a chegada do bebé.
 
A vontade de fazer força foi-se instalando cada vez com maior convicção e... foi tudo muito fácil.
Entre duas contracções, muito complicadas de sentir por causa da epidural, e a preocupação em gritar que não queria que me cortassem (o que a enfermeira acabou por fazer) fiz a força que o corpo pediu e o filhote nasceu.
Eram 20.32h.
  
E foi lindo!!
Foi fantástico, foi maravilhoso... Foi o que toda a gente que já teve um filho sabe que foi!
    
De mãos dadas, olhávamos incrédulos para o nosso ser mínimo e muito sujinho, e um para o outro. Quando o puseram em cima de mim, decorei-lhe o cheiro, decorei os nossos sorrisos e a nosso ar de felicidade completa.
   
O pai João pediu para cortar o cordão e, a partir daí, foi adoptado como enfermeiro ajudante.
Enquanto a enfermeira de neonatologia tratou do nosso filhote, a outra enfermeira e o pai João trataram de mim. Estivemos sempre só nós, nós os dois e duas enfermeiras, mais ninguém. E foi tão bom assim...
    
Entretanto, puseram o nosso filhote num berço aquecido e levaram-no com o pai, para ser mostrado aos avós, em pulgas na sala de espera.
Eu, que me vi de repente sem eles, sozinha com a enfermeira que me estava a coser (a tal que me cortou, mesmo depois de eu lhe ter berrado que não queria), agarrei-me ao telemóvel e, num estado de excitação total, telefonei a alguns amigos e familiares.
         
Quando mo trouxeram ao recobro para mamar, deitada de lado, com ele frente a frente, mirei-o, olhei-o, memorizei-o... (re)conheci-lhe os calcanhares que tantas cócegas me fizeram e amparei-lhe as costas que tanto pressionaram o lado direito da minha barriga. E enquanto me esforcei para acertar com o mamilo dentro da boca dele, para que o conseguisse agarrar e sugar, cheirei-o, beijei-o e segredei-lhe coisas que ficaram só entre nós.
  
                  
Foi o início da nossa aventura... há 18 meses atrás.
Ainda não o tinha registado em lado nenhum e embora não tenha sido feito no rescaldo no parto, acho que não me esqueci de nada importante.
Não quero esquecer...  
          
    
Amamos-te tanto, filho!!
           

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